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Notícia

A sensação de insegurança e os desafios da economia

Além do cenário econômico, temos que considerar o ano de eleições em que a polarização e a falta de projetos mais claros para o país aumentam o grau de imprevisibilidade

Indicadores macroeconômicos, como baixo desemprego, inflação controlada e crescimento do PIB não têm sido suficientes para conter a crescente sensação de insegurança revelada em pesquisas de opinião. Em abril, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) — pesquisa nacional da ACSP com o Instituto PiniOn — mostrou o consumidor mais retraído. O índice caiu para 98 pontos, entrando no campo negativo (abaixo de 100). Nos meses anteriores (janeiro a março), o indicador permanecia estável na marca dos 100 pontos.

Outra sondagem recente, da Quaest (4 de maio), aponta que o endividamento e o impacto dos jogos online na renda estão entre as principais preocupações dos brasileiros, somando-se à segurança pública e à corrupção. Apesar dos dados oficiais, a percepção é de que o endividamento das famílias, que atinge 65%, é insustentável, alimentando a incerteza econômica.

Conclui-se, portanto, que apesar do vigor do agronegócio e da expansão do e-commerce, fatores como juros elevados, baixa produtividade industrial e incertezas climáticas projetam cenários sombrios. Para avaliarmos melhor, trouxemos alguns dados do Instituto de Economia Gastão Vidigal e do Comitê de Avaliação de Conjuntura da ACSP, que faz uma avaliação mensal dos setores da economia.

Se olharmos para o agronegócio, motor da economia que cresceu 12,5% em 2025, o cenário é contraditório. Embora a Safra 2025/26 prometa volume recorde, produtores enfrentam severa compressão de margens. O desequilíbrio entre custos de produção e juros freia investimentos; especialistas alertam que 2026 testará a "sobrevivência econômica" no campo. Além da queda no preço das commodities e da alta de 10% nos fertilizantes, os conflitos no Oriente Médio dificultam o escoamento. No horizonte climático, com o risco de um forte El Niño, a previsão é que o PIB setorial desacelere para cerca de 0,5%.

No varejo eletrônico, dados da Opinião Box e Nuvem Shop revelam um consumidor mais exigente. O e-commerce deve movimentar R$ 160 bilhões em 2026 (+10%). Para este público, a experiência digital precisa superar a física: frete grátis (39%) e preços baixos (40%) são os maiores motivadores, seguidos pela conveniência (28,1%). Contudo, gargalos logísticos geram queixas: frete caro (57%) e prazos longos (35%) levam 50% dos usuários ao Reclame Aqui, site que avalia o serviço das empresas. A desconfiança em lojas desconhecidas e a falta de parcelamento sem juros travam a expansão.

Com um crescimento de 1,4% no primeiro trimestre, o varejo de alimentos vem demonstrando queda de 2,1% no volume de unidades vendidas. Além disso, a queda do Indice Nacional de Confiança do Consumidor, que vimos no início desse artigo, pode acentuar o viés de baixa no setor de modo geral, com impacto no PIB. Também é preciso levar em consideração que os juros continuam muito altos por muito tempo o que acaba deteriorando a confiança do empresário e do consumidor, o alto grau de endividamento das famílias que podem contribuir para a queda do PIB.

O setor de eletroeletrônicos recua 6%, ante retração de 2% da indústria de transformação. O encarecimento de insumos (plástico, alumínio e aço) e o endividamento familiar derrubaram a confiança empresarial para abaixo dos 50 pontos. Com juros elevados, a rotatividade caiu e os consumidores preferem adiar a troca de aparelhos.

Não é difícil, por outro lado, considerar a baixa produtividade uma questão central que impacta no crescimento. Nos últimos 10 anos, o PIB cresceu em média apenas 1,4%, com o agro muitas vezes encobrindo a ineficiência industrial. A perspectiva para 2027 é negativa, com previsão de queda de 2% no setor industrial, agravada pela falta de segurança jurídica que afasta investidores internacionais.

No financeiro, a Inteligência Artificial avança. O setor movimentou R$ 816 bilhões em 7,8 bilhões de transações com IA. Essa revolução impulsiona a demanda por Data Centers, desafiando o setor de energia. O Brasil precisa de soluções para o consumo crescente em meio à escassez hídrica e necessidade de expansão solar. Na área tributária, a reforma em curso gera alerta sobre a elevação de preços em serviços e riscos de sonegação.

De qualquer forma, além do cenário na economia, temos que considerar o ano de eleições em que a polarização e a falta de projetos mais claros para o país aumentam o grau de imprevisibilidade.